Urna Funeraria

VESTÍGIOS DA PRESENÇA GUARANI NO MORRO DOS CONVENTOS

Lúcio Vânio Moraes. Doutorando em História Cultural na UFSC.
e-mail:lucio.v.m@bol.com.br
Bolsista do FUMDES
Jairo Cesa. Mestre em Educação na UDESC.
e-mail:jairocesa@yahoo.com.br





Fonte: Museu Histórico de Araranguá

No ano 1994, no Bairro Morro dos Conventos, quando da escavação para a colocação de uma fossa residencial, trabalhadores se depararam com um objeto um tanto quanto desconhecido. Quando o retiraram da terra, perceberam que o artefato em muito se assemelhava a um enorme vaso cerâmico. No entanto, o artefato nada mais era do que uma das grandes descobertas históricas da região, ou seja, uma urna cerâmica construída pelos povos guaranis que habitaram a região muito antes da chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis.
Naquele dia em diante a história da comunidade e do próprio município teria que ser novamente reinterpretada, demonstrando que a memória local assumiria outra configuração, agora levando em consideração os povos indígenas que tinham o bairro Morro dos Conventos e região como pátria mãe.
Quando se estuda a história do Brasil ou a da América Latina num todo, os próprios livros didáticos e paradidáticos procuram dar maior ênfase ao processo de colonização, ou seja, a partir da chegada dos portugueses e espanhóis, desconsiderando a riqueza da cultura dos povos que habitavam essas terras há muitos séculos. No entanto, alguns livros didáticos, quando abordam a temática indígena, trazem no seu bojo certas verdades que em nada confere com a realidade. Um exemplo é o que aborda o livro As Belas Mentiras – a ideologia subjacente aos textos didáticos, da editora Moraes, 10ª edição, escrito por Maria de Lourdes e Chagas Deiró Nosella, que transcreve texto de um livro didático, 4ª série, que faz o seguinte exposição a respeito o “índio”:
Quem Habitava o Brasil
Os índios viviam em tribos, formados por tabas ou aldeias, que eram agrupados em ocas (choupanas) dispostos em círculo. Os índios andavam nus ou seminus. Geralmente pintavam o corpo, enfeitavam-se com penas, dentes de animais, etc. alimentavam-se de caça, pesca, raízes e frutas. As mulheres indígenas cultivavam o milho e a mandioca. Fabricavam utensílios de barro, cordas e canoas. Apreciavam a dança e a música”.

Percebe-se nesse texto que a preocupação do autor foi caracterizar o índio como um povo único, homogêneo, desconsideração as centenas de nações, com línguas e costumes próprios que, embora em menor número, ocupam o território brasileiro, muitos dos quais vivendo em pequenas reservas demarcadas. Supõe-se também que, por ingenuidade ou intencionalidade, o autor do texto não mencionou o impacto que foi a presença do colonizador com os primeiros habitantes das terras brasileiras.
Sabe-se que muitas dessas reservas demarcadas pelo governo, são insuficientes para que os mesmos supram suas necessidades básicas. É de conhecimento de todos, que inúmeros agrupamentos indígenas foram totalmente aculturados aos costumes do “homem branco” e que muitos desses vêm desenvolvendo atividades econômicas como a agricultura e a pecuária para fins comerciais.
Ainda se tratando de textos que procuram representar as culturas indígenas, em especial o cotidiano das crianças no interior do grupo, é importante citar outro absurdo retirado de um livro didático da 2ª série, presente no livro As Belas Mentiras. Assim relata o texto:

O Indiozinho do Paraná
Reinava a alegria na aldeia. Todas as crianças desciam para o rio. Paraná ia sempre com outras crianças, ria sem parar, atirando água em todo mundo. Mas ninguém brigava, porque as crianças nunca são más”.

Como se percebe, é um texto profundamente romantizado, admitindo a pureza angelical da criança indígena que não apresenta maldade e estando sempre feliz. O que o texto omite é como ser feliz em áreas cada vez menores, ocupadas por projetos agroindustriais que de forma indiscriminada desmatam extensas áreas de terras para implantação de projetos agroindustriais, colocando em xeque a sobrevivência dessas comunidades que necessitam das florestas e dos rios para sua sobrevivência. Como banhar-se nos rios se suas águas estão quase que totalmente sem vida em decorrência da contaminação por agrotóxicos, mercúrio e esgotos domésticos e industriais.
A presença humana em terras brasileiras, através de estudos realizados, data de aproximadamente 20 mil anos. Em santa Catarina é um pouco mais recente, há vestígios de sociedades que datam de 8 a 10 mil anos, conhecidos como povos dos sambaquis, cuja cultura, hábitos alimentares, estava diretamente vinculada ao mar, através da pesca e da coleta de moluscos. O que comprova sua existência são os acúmulos de casqueiros – situados nos municípios de Laguna e Jaguaruna. O que é mais surpreendente é que nesses casqueiros foram encontrados fragmentos de carvão vegetal e fosseis humanos, demonstrando que a história/memória dos mesmos foi constituída nesse ambiente.
De acordo com vestígios indígenas encontrados nas proximidades das comunidades de Ilhas, Morro Agudo, Morro dos Conventos, ambas pertencentes ao município de Araranguá e no próprio município de Arroio do Silva, é possível que nessa região habitassem esses povos.
Pouco se sabe sobre sua cultura, acredita-se que, com a realização de estudos mais específicos brevemente seremos forçados a rever mais uma vez conceitos acerca da nossa história/memória local, que se acredita ser bem mais antiga do que se espera.
Mas, com o achado da urna funerária guarani no bairro Morro dos Conventos, não deixa dúvidas que essas terras pertenciam não somente aos guaranis, conhecidos por Carijós, mas também aos demais povos, dizimados por completo a partir da chegada dos colonizadores. O que resta, portanto, são apenas vestígios que resistiram ao tempo como pontas de flechas e objetos cerâmicos.
Como viviam, como era sua alimentação, suas habitações, suas festas, seus rituais de nascimento, casamento e morte, são dúvida que ainda pairam e que necessitam ser mais bem estudados.
Outro elemento importante acerca da sociedade guarani é em relação ao seu aprimorado conhecimento na arte de produzir cerâmicas. Qual o segredo dos mesmos quando da confecção de artefatos, principalmente urnas funerárias que resistiram séculos e séculos em um clima e solos tão adversos como o litorâneo? Novamente, é importante salientar que esta atividade, ou seja, a produção de cerâmicas era tarefa das mulheres.
Nos últimos anos vem crescendo os achados arqueológicos na região em decorrência de atividades agrícolas ou projetos, como construção de rodovias, fixações de barras, etc, abrangendo áreas ocupadas por sítios indígenas. Um dos grandes avanços da legislação brasileira, no campo da arqueologia, determina que na execução de grandes ou pequenos empreendimentos, caso seja detectado a existência de sítio, deverá se processar um estudo prévio do mesmo. Sendo comprovada sua eficácia histórica, o empreendimento poderá ter sua execução cancelada definitivamente.
Na região de Araranguá, são inúmeros os possíveis sítios existentes. Acredita-se que a partir do achado do Morro dos Conventos, futuros estudos sobre os povos, tanto os dos sambaquis como os guaranis e outros sejam feitos, esclarecendo um pouco mais os mistérios que cercam essas comunidades que habitaram essas terras em tempos remotos.

Oficina de artefatos cerâmicos guarani no bairro Morro dos Conventos

Com o objetivo celebrar o dia do “índio”, a escola E. E. F. Padre Antônio Luiz Dias do bairro Morro dos Conventos, Araranguá SC, promoverá dia 19 de abril uma oficina com artefatos cerâmicos guaranis. A proposta é trazer para a escola um pouco do que resta da história de uma população que habitou essas terras em tempos remotos e que foram totalmente dizimadas com a chegada dos colonizadores.
Pouco se sabe sobre a história/memória desses povos. Sendo assim a oficina proporcionará aos (as) estudantes e professores (as) um conhecimento das tecnologias e técnicas adotadas pelos mesmos na confecção de artefatos de uso doméstico, a saber: jarros, vasos, urnas, panelas (utensílios utilizados na alimentação, como também urnas, usadas em rituais fúnebres.
Antecedendo a oficina, serão desenvolvidas atividades preparatórias com os profissionais da educação com aplicação de textos objetivando a discussão da temática. Cabe salientar, que a referida oficina está inserida no projeto Memória Local que a escola vem desenvolvendo desde 2008, o que instiga também a busca da pesquisa e a produção do conhecimento.
Com o início o projeto Memória Local na escola, procurou-se delimitar um período cronológico específico como expoente da história do bairro, ou seja, a partir da chegada das famílias de açorianos, luso-brasileiros e italianos, esquecendo-se que a história/memória do bairro é muito mais antiga, fato esse comprovado com a descoberta no bairro de uma urna funerária indígena datada entre o século XV e XVI. Além desse artefato, outros elementos, como fósseis e artesanatos foram encontrados na furna do Morro dos Conventos, revelando a presença e riqueza cultural desse grupo no bairro, na história de Araranguá e litoral catarinense.
O objetivo da oficina é tentar romper a visão da tradicional da história ensina na escola, que molda o “índios” como sujeitos homogêneos, descaracterizando sua matriz cultural plural.
Desenfantilizar o conhecimento a cerca desse povo é função da escola, possibilitando reflexões maduras que permite o professor em suas práticas não correr o risco de pintar o rosto das crianças e colocar cocar para comemorar o dia do índio, acreditando que assim estará contribuindo na divulgação da memória indígena. Como sabemos, muito pelo contrário, na verdade o educador e educadora estarão contribuindo para a deseducação da sociedade em relação a cultura indígena.

Para a realização da oficina buscar-se-á no bairro e proximidades os materiais como argila, quartzo para a produção dos artefatos. A finalidade específica da oficina é incorporar em um dia o cotidiano desse povo, observando as habilidades dos mesmos na arte de produzir artefatos. Após a realização da oficina será feita uma exposição dos mesmos na escola e irá se criar um acervo para sua conservação.
Com essas práticas na escola, estamos estimulando a criatividade dos (das) estudantes e exercendo a educação patrimonial, preservando a memória e identidade indígena e dos demais povos que nos antecederam.




1 comentários:

Anônimo disse...

esse blog é d +

Postar um comentário

Chat sos ecologia